Memórias

        Entro com a minha mãe no quintal da nossa casa.

    "A terra está coberta por folhas de várias estações.

    Os pessegueiros perguntam por onde andámos, porque demorámos tanto. As plantas dos canteiros transbordaram, embaraçaram-se numa espécie de desespero. A água do tanque de lavar a roupa é verde. O pombal não tem pombos. A coelheira não tem coelhos. A capoeira está habitada pela memória de galinhas submissas e galos no poleiro, desconfiados de qualquer movimento. Às vezes, como antes, sentimos a chegada da gata, é uma presença, uma intuição, vem cumprimentar-nos, é uma gata livre, salta pelos quintais, escolhe as pessoas com quem quer estar, apesar de invisível, é agora o fantasma de uma gata. Ao fim da tarde, com as janelas abertas, o que escreve a minha mãe sobre a mesa da cozinha? Muito provavelmente, escreve postais aos mortos, dá-lhes notícias com a sua caligrafia de voltas demoradas. Ela própria receberá esses postais quando for às casas vazias ver se há correio".


    Este poema de José Luís Peixoto, in Regresso a Casa, 2020, publicado por Quetzal (Portugal) e Dublinense (Brasil), retrata os sentimentos que vivenciei com a avó dos meus filhos, neste também nosso, regresso à casa dela. Que também é minha.
Por agora, um regresso tardio e relapso do Cem Manias...




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Manuela.


























Comentários

  1. Que lindo poema, Manuela. São sentimentos que todos nós experimentamos quando entramos em casas onde moram as nossas memórias e começamos a lembramo-nos de outros tempo e de pessoas queridas que partiram. Tudo tem um fim e por vezes é doloroso. Beijinhos, bom resto de semana. Volta mais vezes. Val

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